Todos os dias, os mesmos sintomas se repetem:
cólica, gases, diarreia e enjoo. A suspeita médica é de que a causa seja
algum alimento. Então, você se submete a um teste - às vezes demorado -
para descobrir qual é esse alimento: a cada semana, elimina um item da
dieta e observa se os sintomas permanecem. Certo dia, o responsável
finalmente é identificado. Ao eliminar leite e derivados da alimentação,
o seu sistema gastrointestinal funciona como nunca. Problema
solucionado? Ainda não. Falta descobrir de você tem alergia ao leite ou intolerância à lactose.
Embora distintos, os problemas
ainda causam confusão em grande parte da população que, em vez de buscar
ajuda profissional, prefere simplesmente parar de consumir leite e derivados. Mas, de acordo com o nutrólogo Roberto Navarro, especialista do Minha Vida,
esse alimento é uma das principais fontes de cálcio para o organismo e
excluí-lo pode acarretar sérios problemas de saúde, como a perda de
massa óssea. Confira dicas de especialistas para que você consiga
identificar essas disfunções e descobrir a melhor forma de lidar com
elas - junto ao seu médico.
O que é que o leite tem?
Para início de conversa, vale
alguns esclarecimentos básicos. "Alergia é uma resposta exagerada do
sistema imunológico a um corpo considerado estranho pelo organismo",
explica a alergista Ariana Yang, diretora da Associação Brasileira de
Alergia e Imunopatologia. No caso do leite, os corpos estranhos são as
proteínas presentes neste alimento.
De acordo com a médica, a
alergia ao leite costuma despontar ainda na infância. ?Cerca de 2% das
crianças têm o problema, mas, como o sistema imunológico vai sofrendo
alterações ao longo do tempo, a alergia costuma desaparecer?, aponta.
"A intolerância à lactose, por
sua vez, é uma deficiência caracterizada pela falta de lactase, enzima
responsável pela quebra da lactose, que é o açúcar do próprio do leite",
afirma a gastropediatra Vera Lucia Sdepanian, da Unifesp. Segundo a
especialista, cerca de 70% dos adultos têm algum nível de intolerância,
pois a quantidade de lactase no organismo vai diminuindo naturalmente
após os cinco anos de idade.
Embora cada problema compreenda
mecanismos completamente diferentes, os sintomas podem ser semelhantes
em alguns casos. A alergia pode causar sintomas cutâneos, como
urticárias, inchaço e coceira; respiratórios, como tosse e falta de ar e
também gastrointestinais, como diarreia, dor de barriga e gases. A
intolerância, entretanto, resume-se exclusivamente ao trato
gastrointestinal.
Mudanças na dieta
"A reação imunológica do
alérgico ao leite não varia de acordo com a quantidade ingerida", afirma
a especialista Ariana. Assim, um pedaço de queijo ou um copo de leite
podem desencadear sintomas de intensidade equivalente. O problema é que
essa reação pode ser desde uma alteração leve de pele até um choque
anafilático, que pode ser fatal. Por essa razão, leite e derivados
precisam ser completamente excluídos da dieta do alérgico.
No entanto, essa medida resolve
apenas parte da questão. Sem laticínios - uma das principais fontes de
cálcio da nossa alimentação -, o alérgico precisa recorrer a outros
alimentos para que a deficiência desse nutriente não leve a cãibras,
perda de massa óssea e outras complicações. O especialista Roberto
Navarro recomenda consumir soja e vegetais verde-escuros, como a couve e
o brócolis, para contornar o problema.
Ainda assim, esse reforço
alimentar pode não ser suficiente. "Nosso corpo consegue absorver até
90% de cálcio de alimentos de origem animal, mas apenas 10 ou 20% de
cálcio de alimentos de origem vegetal", diz o especialista. Neste caso,
um nutricionista poderá recomendar suplementação do nutriente.
Já para a grande maioria dos
intolerantes à lactose, a restrição é menor rígida. "Nos graus leve e
moderado dessa deficiência, o paciente ainda é capaz de digerir certa
quantia de açúcar do leite", explica a gastropediatra Vera. A quantidade
de leite ingerida faz toda a diferença e a única dificuldade do
intolerante é conseguir encontrar uma medida limite de consumo.
Outra saída é investir em
alimentos com menor teor de lactose. "É possível encontrar algumas
marcas de leite com até 90% menos lactose no mercado", diz o nutrólogo
Roberto Navarro. Ele recomenda ainda investir, sobretudo, em alimentos
fermentados. "O processo de fermentação já consegue quebrar a lactose em
partes menores, facilitando a digestão do intolerante", conta. Nos
casos mais agudos, são prescritas mudanças mais radicais na dieta
similares às aplicadas ao alérgico.
Tratamento
Em ambos os casos, há
necessidade de mudanças na dieta. Além disso, o alérgico pode se
submeter a um tratamento de dessensibilização das proteínas do leite.
?Ele consiste na exposição do paciente a esses componentes que causam
alergias e deve ser feito somente por um especialista?, esclarece a
alergista Ariana. Para o intolerante, também há a opção de um
medicamento de enzimas sintéticas de lactase. A prescrição pode ser
feita apenas pelo profissional responsável pelo caso.
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